Abril 2026
MARMOSAICO: transformar o saber do mármore em oportunidades de futuro
O projeto ‘MARMOSAICO: Escola de Futuro’ nasce com uma missão clara: promover a inclusão social e profissional através da valorização de saberes tradicionais ligados ao mármore. Com o apoio de vários parceiros, um deles o Grupo Galrão, esta iniciativa desenvolvida no Alentejo Central combina formação artesanal, inovação tecnológica e capacitação para o mercado de trabalho, criando oportunidades para jovens e grupos em situação de vulnerabilidade.
Nesta entrevista, exploramos o impacto, os objetivos e a visão futura de um projeto que transforma recursos naturais e património em ferramentas de inclusão e desenvolvimento.
O que esteve na origem da criação da MARMOSAICO e por que razão o Alentejo Central foi escolhido como território de atuação?
A criação do ‘MARMOSAICO: Escola de Futuro’, teve como origem a identificação de desafios sociais, tais como falta de emprego, jovens em situação de vulnerabilidade social e económica e imigrantes que se caracterizam pela exclusão de oportunidades. Assim, surge enquadrado no Programa de Inovação Social como uma resposta à necessidade de combater a exclusão social e económica na região do Alentejo e visa capacitar e integrar pessoas através da revitalização de saberes tradicionais ligados ao mármore e à integração no mercado de trabalho. O Alentejo Central, mais concretamente os concelhos de Alandroal, Borba e Vila Viçosa, foi escolhido como território de atuação por um conjunto de fatores estratégicos. Esta região concentra o principal polo da indústria do mármore em Portugal, integrado no anticlinal de Estremoz-Borba-Vila Viçosa, onde se encontra a maior e mais relevante reserva nacional desta pedra natural. Paralelamente, trata-se de um território com forte identidade patrimonial e potencial de turismo industrial, promovido, entre outros, pela Rota do Mármore no âmbito do CECHAP.
Neste contexto, o MARMOSAICO procura reforçar a colaboração entre diferentes setores e potenciar a indústria cultural local, valorizando a importância histórica e económica do mármore. Ao mesmo tempo, responde à necessidade de desenvolver soluções inovadoras que promovam a capacitação e integração de pessoas em situação de vulnerabilidade, utilizando os recursos naturais e o património geológico como motor de inclusão social. A riqueza cultural e industrial do Alentejo Central torna, assim, este território particularmente adequado para um projeto que articula formação profissional com valorização do território, contando ainda com o envolvimento ativo dos municípios, que se disponibilizaram a colaborar em várias dimensões da iniciativa. Ao longo dos três anos de execução, o projeto prevê capacitar um total de 54 participantes, através da dinamização de nove oficinas. Cada oficina terá a duração de 100 horas e será estruturada em quatro módulos complementares: criação de mosaico em mármore, pintura e arte de marmorear, modelagem em cerâmica e tecnologias experimentais.
Que impacto social considera mais relevante desde o início do projeto? Podem partilhar alguns resultados ou indicadores concretos?
O impacto social mais relevante do MARMOSAICO: Escola de Futuro será a inclusão e capacitação de jovens e grupos vulneráveis, integrando-os na economia local através da valorização da indústria do mármore. A primeira oficina teve início em fevereiro de 2026, estando o primeiro Módulo ainda a decorrer. Ainda não é possível apresentar resultados nem indicadores referentes aos objetivos principais da formação. Contudo, e uma vez que a turma é composta por 7 elementos com características bastante distintas (género, idade, nacionalidade, habilitações literárias) podemos afirmar que o MARMOSAICO teve um impacto significativo na inclusão destes utentes, na medida em que se mostrou um turma coesa. Três dos elementos da turma não falam português e, em contexto de formação, foi notória uma evolução dos vários elementos, o que por si só já se poderia considerar um indicador de inclusão social. O primeiro Módulo consiste na criação do Mosaico, onde até à data, foram transmitidas várias técnicas, as quais vão ser aplicadas no desenvolvimento do Mosaico. Os vários formandos, demonstraram bastante interesse, dedicação e empenho no desenvolvimento das técnicas, realizando atividades de uma qualidade notável.
Quais são os principais critérios de seleção dos participantes nas oficinas e formações?
O MARMOSAICO dirige-se a quatro grupos principais: jovens NEET entre os 15 e os 29 anos que não estudam, não trabalham nem se encontram em formação, imigrantes, pessoas com deficiência e indivíduos em situação de vulnerabilidade social e económica. Cada participante deve enquadrar-se em, pelo menos, um destes grupos, garantindo o foco do projeto na promoção da inclusão e da igualdade de oportunidades.
Que competências artesanais e digitais os participantes desenvolvem ao longo das formações?
Ao longo das formações, os participantes têm a oportunidade de experimentar diversas técnicas e adquirir competências artesanais, com foco no saber-fazer tradicional e na valorização dos recursos locais. No âmbito do mosaico em mármore, aprendem a desenvolver esboços, bem como processos de corte, colagem e composição, utilizando o mármore como matéria-prima principal. Paralelamente, aprofundam o conhecimento sobre as propriedades das rochas ornamentais e a utilização adequada das ferramentas, ao mesmo tempo que desenvolvem uma maior consciência sobre o valor do mármore enquanto património histórico e cultural da região de Vila Viçosa.
A formação estimula também a criatividade, incentivando a transformação de resíduos ou fragmentos de mármore em peças de valor artístico, promovendo uma abordagem alinhada com princípios de economia sustentável. Através da cedência de matéria-prima por parte dos parceiros, é possível equilibrar produção e consumo, contribuindo para a preservação ambiental e o bem-estar social.
Com o objetivo de facilitar a integração no mercado de trabalho contemporâneo, o MARMOSAICO integra ainda uma componente de competências digitais e de empregabilidade. No módulo de tecnologias experimentais, os participantes desenvolvem conhecimentos básicos de design visual aplicados à criação de conteúdos digitais, aprendem a produzir materiais gráficos com recurso a ferramentas acessíveis e exploram tecnologias emergentes, como a realidade aumentada e a realidade virtual. No final, espera-se que sejam capazes de conceber pequenas experiências digitais ou imersivas, reforçando a sua preparação para os desafios atuais do setor.
Existe acompanhamento após a conclusão das oficinas, no sentido de apoiar a integração profissional ou o empreendedorismo dos participantes?
Aquando da conclusão das oficinas, cada um dos participantes terá um relatório de acompanhamento social onde será descrito o contexto socioeconómico e comportamental e ao longo da formação irá ser monitorizada a evolução, mudanças e eficácia das intervenções realizadas junto dos indivíduos. Do universo dos 54 participantes, o MARMOSAICO tem como objetivo integrar 11 alunos. É fundamental que os formandos, integrem a sua primeira experiência no setor num ambiente que os acolha e onde se sintam seguros. Esperamos que os nossos parceiros, uma vez que foram eles os primeiros a disponibilizar-se para dar a conhecer o trabalho no setor, também tenham interesse em dar oportunidade a alguns dos nossos formandos para que consolidem a sua experiência profissional.
Em que medida a MARMOSAICO se diferencia de outras iniciativas ligadas às artes tradicionais, nomeadamente ao nível da inovação e da tecnologia?
Esta diferencia-se de outras iniciativas ligadas às artes tradicionais por se afirmar como um projeto de inovação social que utiliza o património e os recursos endógenos, como o mármore, a pintura e a cerâmica, não apenas como um fim artístico, mas como uma ferramenta de capacitação e inclusão, tanto a nível pessoal como profissional, de pessoas em situação de vulnerabilidade. Esta abordagem assenta em três dimensões fundamentais. Por um lado, a inovação social e a inclusão, uma vez que, ao contrário de outros ateliers focados na preservação de saberes ancestrais ou na oferta de experiências criativas, o MARMOSAICO tem como essência a integração de públicos vulneráveis, como jovens NEET, imigrantes, pessoas com deficiência e indivíduos em situação de exclusão.
Por outro lado, destaca-se o cruzamento de matérias e saberes, promovendo uma abordagem interdisciplinar que permite compreender as diferentes áreas de forma sistémica e holística. Esta metodologia incentiva a cooperação, a partilha de conhecimento e a construção de competências mais complexas e significativas, estabelecendo também um diálogo entre materiais do território, como o mármore e a cerâmica, inspirado na tradição do mosaico romano. Por fim, a capacitação prática assume um papel central, baseada no saber-fazer e na aprendizagem através da experimentação. O recurso ao mármore, enquanto matéria-prima local, é assim transformado num veículo para o desenvolvimento de competências e para a criação de novas oportunidades de integração.

Como é que os workshops de empreendedorismo e indústrias criativas se traduzem em oportunidades concretas de inserção no mercado de trabalho?
O workshops de empreendedorismo e indústrias criativas funcionam como pontes práticas para o mercado de trabalho, transformando competências abstratas em resultados tangíveis. Esta transição ocorre principalmente através da capacitação técnica, do desenvolvimento de soft skills e da criação de redes de contactos profissionais. Esta metodologia foca-se na transição da “criação da ideia” para a adaptação ao “negócio”, fornecendo ferramentas essenciais para a sustentabilidade profissional. Para além do saber técnico, esta prática estimula capacidades essenciais em qualquer contexto laboral, como a criatividade e inovação, comunicação, resiliência e liderança. Como principal valor identificado, a ligação direta com o meio profissional permite acesso a mentorias e contacto com empresas do setor. A inserção no mercado de trabalho não se limita apenas ao emprego por conta de outrem, mas também na capacitação para o empreendedorismo como uma ferramenta fundamental para superar o desemprego.
Que perspetivas existem para reforçar a ligação entre artes tradicionais, inovação e mercado nos próximos anos?
O MARMOSAICO: Escola de Futuro apresenta uma perspetiva de crescimento sustentada, assente sobretudo na expansão geográfica e na diversificação do público-alvo. Ao alargar o seu território de atuação, o projeto procura evoluir de uma iniciativa local para uma referência de âmbito regional ou mesmo nacional, integrando influências de diferentes contextos e valorizando novas matérias-primas. Paralelamente, ao abrir-se a novos públicos, desde jovens a população sénior, passando por designers, turistas ou profissionais em processo de reconversão, reforça a capacidade das artes tradicionais responderem às exigências e dinâmicas contemporâneas.
A valorização e dinamização do património local assume também um papel central, através da implementação de estratégias que transformam recursos culturais e naturais em ativos de desenvolvimento comunitário, turístico e económico. Neste enquadramento, destacam-se ainda algumas linhas de evolução complementares. A aposta no design contemporâneo promove a colaboração entre mestres artesãos e designers, permitindo responder a tendências associadas ao luxo e à sustentabilidade, ultrapassando uma abordagem meramente tradicional. O acesso a novos mercados, nomeadamente nas áreas da arquitetura de luxo e da reabilitação patrimonial, contribui para posicionar o mosaico como um revestimento nobre e de elevado valor acrescentado. Por fim, a formação e transmissão de conhecimento mantêm-se como prioridades, através da criação de programas que atraiam novos talentos e assegurem a continuidade do saber-fazer, adaptando-o às exigências do mercado digital e aos princípios da economia circular.
Qual é o papel de parceiros e patrocinadores como a Galrão na sustentabilidade e crescimento do projeto?
As parcerias são o motor que permite a um projeto alcançar resultados que seriam impossíveis de obter de forma isolada. Elas funcionam como uma união estratégica de recursos e competências para atingir objetivos comuns. Assim, podemos afirmar que as parcerias são essenciais para a realização do MARMOSAICO, na medida em que foram os parceiros os primeiros a acreditar no sucesso do projeto, agregando credibilidade e conhecimento partilhado e minimizando riscos. Uma vez que o Grupo Galrão é um dos principais extratores do concelho de Vila Viçosa e já temos parceria estabelecida no âmbito da Rota do Mármore, tornou esta parceria natural e de extrema importância. Além do apoio financeiro, consideramos extremamente importante a experiência e a sabedoria na arte da extração (valorização do conhecimento prático). Através das visitas de estudo à pedreira, os formandos podem aprender diretamente com que domina a arte da extração adquirindo conhecimento com quem já tem anos de experiência.
Existe a intenção de replicar o modelo da MARMOSAICO noutros territórios de Portugal?
O MARMOSAICO é um projeto piloto, é essencial obter experiência e alcançar os objetivos propostos, de forma a adaptar a metodologia a outras áreas geográficas que enfrentam desafios semelhantes. Não estando afastado em hipóteses no futuro.



