João Marcos Moreira: A Arte de Reimaginar a Pedra Natural Portuguesa
Maio 2025
João Marcos Moreira: A Arte de Reimaginar a Pedra Natural Portuguesa
Mergulhamos no universo criativo do designer João Marcos Moreira que, ao lado da Assimagra e do estúdio Olivah, reiventa a forma como nos relacionamos com a pedra natural portuguesa. No contexto do projeto Broot, o designer revela como o mármore e a cortiça, materiais emblemáticos da nossa terra, se encontram em harmonia para criar peças que são um reflexo da nossa história, cultura e território. A sua colaboração com o Grupo Galrão destaca a importância do saber fazer artesanal, da autenticidade e da preservação dos valores que ligam tradição e inovação. Com uma visão sustentável e atenta ao futuro, o designer partilha a sua jornada de resgatar memórias e reimaginar o design, criando não apenas objetos, mas peças que carregam a essência do nosso passado e da nossa identidade.
Comecemos pelo projeto Broot. Como foi para si integrar esta iniciativa da Assimagra? O que o motivou a aceitar este desafio?
Foi com grande apreço que recebi o convite da Assimagra e da Olivah para integrar a 1ª coleção da Broot. Acredito que cada parceria brote como uma semente, e esta colocou-nos diante de uma oportunidade rara: repensar a pedra natural portuguesa em diálogo com outras matérias associadas a diferentes regiões. De forma telúrica, os elementos chamaram-nos de volta às origens, desafiando-nos a construir pontes entre mestres e indústrias outrora isoladas nas suas artes. O Broot não promove apenas o valor da matéria-prima nacional, mas também a história de Portugal, através dos seus recursos e técnicas ancestrais. Trabalhar com o mármore e a cortiça não se limitou a uma escolha estética, mas a um reencontro com uma linguagem esquecida no tempo — que quis redescobrir, traduzir e reinterpretar.
O Broot propõe uma nova leitura da pedra natural portuguesa. Na sua visão, qual é o papel da pedra — e, em especial, do mármore — no design de produto contemporâneo?
A pedra — e o mármore em particular — é uma memória petrificada. Carrega consigo o tempo, o silêncio, o movimento e a resiliência. Num mundo cada vez mais volátil e imediato, o mármore convida-nos a uma pausa e à contemplação. Ele é matéria que resiste e que nos leva a respeitar o processo. No design contemporâneo, esta presença ressoa contra o efémero. O seu peso é simbólico, e os seus padrões quase que etéreos, fazem-nos lembrar que somos parte de algo maior, mais antigo e mais duradouro do que nós mesmos. Criando assim uma aliança que perpetua o passado, o presente e o futuro com o qual nos conseguimos representar.
No seu trabalho dentro do projeto, cruza mármore com cortiça. Como surgiu esta combinação de materiais? Que diálogo procurou criar entre eles?
A combinação do mármore com a cortiça não surgiu por contraste, mas por afinidade – ambos coexistem na paisagem alentejana. Um, extraído das entranhas da terra, o outro, recolhido da superfície viva das árvores. O mármore é frio, denso e fúnebre. Já a cortiça é quente, leve e fértil. Juntos, evocam uma tensão que abraça o céu e o subsolo. A minha intenção foi fazer com que dialogassem como elementos de um mesmo mito — a matéria-prima como metáfora da condição humana e da sua espiritualidade. Esta coleção é o resultado da observação da herança histórica e da flora existente no sudoeste português. É um manifesto da harmoniosa simbiose entre aquilo que o Alentejo foi e é ainda nos dias de hoje – onde a imponência dos monumentos megalíticos se fundem com a graciosidade dos sobreiros. Uma paisagem petrificada há 7 mil anos, simbolizando a essência atemporal da região.
Fale-nos do processo de criação das suas peças para o Broot. Como pensou os volumes, as texturas e as funções? Houve alguma peça que o tenha marcado especialmente?
O processo foi um renascer arqueológico. Cada forma nasceu da simbiose de elementos antagónicos que coabitam na paisagem. Silhuetas monumentais fundem-se com a graciosidade dos sobreiros e do seu descortiçar, como se estivéssemos a escavar não só a pedra, mas também o tempo e a nossa história. Ao longo da pesquisa, descobri curiosidades fascinantes acerca do local. Portugal, mais centralizado na região do Alentejo, é a segunda região com mais monumentos megalíticos. Estes espaços tinham finalidades ritualísticas, cerimoniais ou fúnebres, mas eram também utilizados como marcos geográficos e astronómicos. Nos dólmens, as paredes eram pintadas de ocre e os mortos eram colocados em posição fetal na câmara central, que simboliza o ventre e o útero da mulher, para assim renascerem. Estes elementos foram traduzidos nas peças ao revestirmos o interior das estruturas de mármore com cortiça. Outra que posso destacar é que o professor José Armando Saraiva acreditava que os menires, estruturas de forma fálica, eram utilizados para fecundar o ventre terreno, como um culto de fertilização das terras. Fica então clara esta correlação entre a fertilidade e a finitude; a vida e a morte; a luz e a sombra; o orgânico e o estático. A paisagem onde estes povos pré-históricos se alicerçaram é a mesma que ainda nos dias de hoje vemos, funcionando como uma ponte entre o passado e o presente do Alentejo. Desta forma, associei as formas orgânicas e as silhuetas curvilíneas das peças aos anéis das árvores e ao movimento do descortiçar. As peças foram pensadas como fragmentos perdidos e que agora haviam sido encontrados. A intenção foi criar não apenas objetos, mas vestígios.
A sua ligação ao Grupo Galrão surgiu durante o processo criativo e de seleção de materiais? Como foi essa relação? Que impressões leva da colaboração com a empresa?
A Galrão surgiu como um guardião da matéria — alguém que não só a conhece, mas que a honra e celebra. A relação estabeleceu-se com naturalidade e respeito mútuo ao longo de todo o processo. Aquando das visitas às pedreiras e ao seu espólio, fui recebido com uma escuta atenta, curiosa e senti que cada pedra era apresentada com o entusiasmo de quem por ela é fascinado. A seleção de cada bloco foi quase um ritual: cada corte, veio, padrão e imperfeição carregava uma história que queríamos contar. Levo comigo uma profunda admiração pelo seu compromisso com o saber fazer, a autenticidade, a precisão e profissionalismo.
E trabalhar com o mármore Galrão? O que destaca em termos de qualidade, resposta do material ou apoio técnico da equipa?
A Galrão traz consigo um legado e a sua pedra é o testemunho e herança disso mesmo. Cada uma delas carrega densidade e profundidade nas cores e padrões, o que tornam cada peça única e irrepetível. Selecionadas cuidadosamente, as peças proliferam quando tratadas com respeito — e é isso que a equipa da Galrão faz com mestria. O apoio técnico foi imprescindível e funcionou como uma fundação do processo criativo, criando a aliança ideal para o desenvolvimento da coleção. Juntos compreendemos que não se tratava apenas de executar, mas de preservar a intenção, a emoção e o gesto por detrás de cada forma através da pedra.
Olhando para o futuro — como imagina a evolução do design com pedra natural? Que oportunidades vê nesta ligação entre tradição e inovação?
A arte e o design resultam na materialização da nossa cultura e emoções, perpetuando-as através de diferentes objetos. E a humanidade ao longo da sua história foi contemplativa ao demonstrar a sua conexão aos artefatos. Acredito num futuro onde estas áreas nos aproximam cada vez mais à nossa essência, e a pedra natural tem um papel essencial nesse caminho – ela convida-nos a criar com consciência, com memória e com tempo. A inovação não está em negar a tradição, mas em escutá-la de outra forma e reescrevê-la. Mais do que encontrar soluções em indústrias massificadas, o segredo está na otimização da matéria-prima. Com uma consciência sustentável, atenta ao desperdício e conectando pequenos e médios produtores, ganhamos uma nova forma de introdução no mercado, que, aliando-se à energia de designers e estúdios, trazem uma nova roupagem para estes materiais. Vejo a pedra como um arquivo aberto, onde cada geração pode escrever, sem apagar o que já foi dito. O desafio será este: continuar a esculpir o futuro sem renunciar o passado.
Vamos ver novas peças em breve? Se sim, pode partilhar um pouco sobre elas ou sobre o que está atualmente em desenvolvimento?
Trabalhar de perto com a indústria fez-me perceber a plasticidade daquilo que a pedra é capaz de fazer. Neste momento, estou a desenvolver uma nova coleção que dará continuidade às histórias que me inspiram e que carregam em si esta linguagem primitiva. Trata-se de uma série de peças escultóricas em edições limitadas, nas quais o mármore continua a ser o protagonista. Objetos que evocam o ritualístico, o ancestral, e que habitam na fronteira entre o útil e o simbólico. A coleção irá reforçar esta estética pré-histórica e cerimonial, enraizada na essência do Homem e da sua ligação à terra, mas com os olhos postos no cosmos.
Por fim, o que gostaria que as pessoas sentissem ao ver ou tocar nas suas peças? Há alguma mensagem ou emoção que procurou transmitir?
O meu objetivo é que, para além de representar a matéria-prima nacional, consiga dar corpo às nossas histórias, e que através das silhuetas criadas, espelhe a região e aquilo que produz. Mais do que criarmos produtos, estamos a contar a nossa história. Gostaria que sentissem uma pausa. Um silêncio. Que ao tocar nas peças, tocassem também em algo que não se vê, mas que se sente: o tempo, a memória, o sagrado. Quero que as minhas peças despertem uma sensação de encantamento e de pertença a algo maior, mais vasto e mais antigo. Se conseguirem provocar essa viagem interior — então, cumpriram o seu papel.





